Atitude Cidadã
Música
Publicado em 12.04.2008, às 19h01
do Caderno C - Jornal do Commercio
Um baixo, uma guitarra, uma bateria, muita vontade de tocar e nenhuma oportunidade. Onze anos atrás, era este o cenário com que se deparavam jovens como Adriano Ferreira e Márcio Francisco, no distrito de Ponte dos Carvalhos, no Cabo de Santo Agostinho. À frente da banda de metal Vurmos, eles tomaram emprestado o mote de outro gênero musical (o punk “faça-você-mesmo”) e decidiram se inserir meio à força, como numa roda de pogo, no cenário cultural da cidade.
Em 2003, a oficina mecânica do “amigo de um amigo de um conhecido” passou a ser o ponto de encontro do pessoal da música alternativa (que, no caso, significava reggae, rap, hardcore, metal, coco, maracatu e tudo o que não tivesse espaço dentro do circuito oficial).
Na base do boca-a-boca, os ensaios abertos na oficina passaram a reunir um público considerável, até desagüar, em 2005, no 1º Festival Oficina do Rock - Acorda Ponte, Aqui tem Cultura. Pronto, estavam dadas as bases para o que, um ano depois se transformaria na ONG Núcleo Alternativo de Cultura Independente Oficina, que se viabilizou graças a uma parceria com outra ONG, a Plan, que atua em 66 países e mantém um escritório no Cabo de Santo Agostinho.
“Nós queríamos oferecer algo à comunidade, mas até então não tínhamos nada. Até os instrumentos que usávamos eram emprestados. Então a Plan nos procurou para um intercâmbio, porque nós tínhamos articulação com a comunidade”, conta Márcio Francisco, um dos coordenadores da Oficina. “Eles eram superligados na comunidade, mas não poderiam avançar sendo pessoas físicas. A Plan deu a idéia de formalizar uma empresa e doou material, equipamentos de som e computador”, confirma Alexandra Loyo Cavalcanti, Facilitadora de Child Midia da organização.
Hoje a Oficina está instalada no número 85 da Rua Oscar Francisco de Lima, um sobrado de três quartos que consome R$ 300 por mês de aluguel. É lá que se desenvolvem a maioria das atividades promovidas pela ONG. A principal delas é a Escola de Rock, cujo nome foi tomado emprestado do filme homônimo com John Cusack. Numa sala com paredes abarrotadas de fotos de Ozzy Osbourne, Elvis Presley e Chico Science, músicos voluntários dão aulas de guitarra, baixo, bateria, berimbau e violão a jovens da comunidade que tenham entre 9 e 15 anos, estudem em escola pública e nunca tenham tido contato com nenhum instrumento musical.
No cômodo ao lado, mais tranqüilo, funciona o escritório e a sala de aula de informática. Dois computadores (um, na verdade, que o outro está em manutenção) ajudam os alunos a desvendar o inesgotável mundo da internet. No total, incluídas também as aulas de rima, discotecagem e noções de desenho e grafitagem (a idéia é que esta última se torne uma escola profissionalizante), a ONG atende bimestralmente 64 crianças. Por semestre, “formam-se” 192 alunos.
A Oficina promove atividades também fora de sua sede. Uma delas é a Invasão de Cinema. Com equipamento próprio de data show, telão e som, eles percorrem comunidades como Pontezinha e Charneca exibindo vídeos produzidos por crianças da própria Ponte dos Carvalhos, através do projeto Comunicando os Direitos da Criança e do Adolescente, da Plan. “A idéia é fazer com que as comunidades carentes possam ter acesso à comunicação como ferramenta de inclusão social e que os participantes se transformem em comunicadores comunitários”, explica Alexandra Loyo.
Outros projetos que ganham as ruas são o já citado festival de música Oficina do Rock, previsto para acontecer este ano em outubro (interessados em submeter o trabalho à seleção devem enviar e-mail para oficinarock@gmail.com), e a Batalha de Bandas, “destinada a grupos que estejam realmente começando do zero”, como explica Adriano Ferreira.
Apesar dessa agenda intensa, a Oficina toca os seus projetos sem nenhum aporte por parte do poder público. “Já foram encaminhados alguns projetos à prefeitura, mas até agora não houve recursos públicos. Há apoio pessoal, mas não de instituição para instituição”, ressente-se Adriano, desconfiado de que a lógica paternalista ainda seja o caminho mais curto entre o cidadão e seus representantes legais. “Se a gente pedisse um remédio ou para pagar uma conta de luz talvez fosse mais fácil”, acredita.
» Núcleo Alternativo de Cultura Independente Oficina
(Rua Oscar Francisco de Lima, 85, Ponte dos Carvalhos - Cabo de Santo Agostinho)
Informações: 8768-1634.
sábado, 12 de abril de 2008
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